O pior das apostas ainda não chegou: da CPI das bets ao Polymarket e a financeirização de tudo
Eu já escrevi sobre o vício em apostas esportivas. Contei que passei por isso, que o período dos campeonatos europeus era o meu gatilho, e que o Brasil se transformou em um imenso cassino a céu aberto — com o Brasileirão batizado com o nome de uma casa de apostas, times estampando odds no peito e um PIX separando você da ruína financeira.
Naquela época, os dados já eram assustadores: 28% de aumento em falências, 9% de aumento em violência doméstica nos dias de derrota do time da casa, casas de apostas que banem jogadores habilidosos e caçam os compulsivos. A CPI das bets já mostrava o circo que virou. Eu achava que já tínhamos visto o pior.
Eu estava errado.
De 5 Bilhões a 160 Bilhões em Nove Anos
Em 2016, americanos apostavam menos de 5 bilhões de dólares por ano em esportes. Para ter uma noção de escala, era o equivalente ao faturamento das lavanderias dos EUA. Em 2025, esse número chegou a pelo menos 160 bilhões — aproximando-se do que os americanos gastam com passagens aéreas domésticas.
Um crescimento de 32 vezes em menos de uma década. Só na NFL, foram 30 bilhões apostados em futebol americano, e a liga embolsou 500 milhões em publicidade, licenciamento e dados para casas de apostas.
A mesma NFL cujo comissário Paul Tagliabue declarou, em 1992: “nada fez mais para deteriorar os esportes que os americanos praticam e assistem do que a aposta generalizada sobre eles.” A mesma NBA cujo comissário David Stern ameaçou o governador de New Jersey, em 2012, por tentar legalizar apostas esportivas.
Hoje, esses mesmos esportes se alimentam do dinheiro que juraram combater.
Vício em Apostas: Um em Cada Cinco Jovens
Aproximadamente um em cada cinco homens abaixo de 25 anos apresenta comportamento problemático com jogos de azar online. As ligações para a linha de ajuda ao jogador compulsivo nos EUA triplicaram desde 2018.
Derek Thompson levanta um ponto que me pegou de surpresa: a Geração Z, que diminuiu o consumo de álcool em relação às gerações anteriores, trocou a garrafa pelo celular. Só que a sociedade tem séculos de experiência regulando o álcool — licenças, idade mínima, horários de funcionamento, proibição de consumo em locais públicos. Para o vício em apostas via smartphone, não temos absolutamente nada comparável.
E eu falo por experiência própria: para um viciado, o celular com acesso instantâneo a apostas é como um alcoolista carregando uma garrafa de whisky no bolso 24 horas por dia. A diferença é que ninguém vai te impedir de abrir o app no banheiro do trabalho.
A Manipulação Que Ninguém Vê
Em novembro de 2025, os arremessadores do Cleveland Guardians, Emmanuel Clase e Luis Ortiz, foram indiciados por manipulação de resultados. O esquema era engenhoso na sua simplicidade: apostadores corruptos pagavam para que arremessadores jogassem bolas específicas no chão — apostando que seriam bolas e não strikes. Entre centenas de arremessos por jogo, uma bola ruim passa completamente despercebida. Os fraudadores faturaram 450 mil dólares antes de serem pegos.
No final de 2025, o FBI anunciou 30 prisões ligadas a esquemas de apostas na NBA.
E aqui está o dado mais revelador: dois terços dos americanos agora acreditam que atletas profissionais às vezes alteram seu desempenho para influenciar resultados de apostas.
Pense na gravidade disso. Não estamos falando de uma teoria conspiratória marginal. É a maioria da população acreditando que o esporte que assiste é corrupto. É uma crise de confiança institucional que vai muito além do campo.
No Brasil, onde a manipulação de resultados no futebol já é endêmica — vide os escândalos recorrentes de arbitragem e a máfia do apito —, a injeção massiva de dinheiro de apostas esportivas só potencializa o problema. Se nos EUA, com toda a estrutura de fiscalização, o FBI precisou fazer 30 prisões, imagine o que acontece aqui, onde a CPI das bets virou palanque de celebridades e a regulamentação das apostas ficou no papel.
Polymarket e Mercados de Previsão: Quando Tudo Vira Aposta
Mas o esporte é só o começo. O que vem depois é pior.
Plataformas como Polymarket e Kalshi — os chamados mercados de previsão — movimentaram cerca de 50 bilhões de dólares em 2025. O Polymarket já opera no Brasil e tem ganhado tração entre brasileiros. E não estamos falando de apostar no Corinthians ou no Flamengo. Estamos falando de apostar em guerras, fome, ataques terroristas, mortes.
Em 28 de fevereiro, um usuário do Polymarket, chamado “Magamyman”, fez uma aposta incomumente alta de que os EUA bombardeariam o Irã em uma data específica, mesmo com probabilidades extremamente baixas. Horas depois, as bombas caíram. Ele faturou 553 mil dólares. Dezenas de outras apostas suspeitas, totalizando milhões, foram feitas nas horas anteriores ao conflito.
Em 10 de março, 14 milhões de dólares foram apostados na localização precisa de um ataque de míssil iraniano próximo a Jerusalém. Apostadores ameaçaram e pressionaram o jornalista Emanuel Fabian para reescrever sua reportagem de forma a coincidir com o resultado das apostas, prometendo tornar sua vida “miserável”.
Pessoas apostando na data de casamento da Taylor Swift é banal. Pessoas apostando se haverá fome em Gaza é obsceno. Pessoas apostando em ataques terroristas com informação privilegiada é criminoso.
Thompson acerta em cheio: “Um jovem apostando em um ataque terrorista ou em uma fome não está agindo como um cidadão preocupado cuja participação melhora a eficiência dos mercados de previsão. Ele é apenas um cara, no celular, sozinho em um quarto, escolhendo torcer pela morte.”
O Último Idioma Moral
Há uma reflexão mais profunda aqui que vai além da regulamentação. Thompson recorre ao filósofo Alasdair MacIntyre para articular algo que eu intuía, mas não sabia nomear: em um mundo de baixa confiança, onde pesquisas são manipuladas, notícias são curadas algoritmicamente e o voto parece comprometido, a aposta se torna a última forma de participação cívica que parece honesta.
Uma aposta se resolve. Um jogo termina. Há conforto nisso.
É deprimente, mas faz sentido. Quando as instituições falharam — e no Brasil elas falharam com uma consistência impressionante —, o mercado se oferece como o último árbitro moral. O dinheiro se torna a linguagem universal de uma sociedade fragmentada que não confia mais em nada.
E as casas de apostas sabem disso. Elas não vendem entretenimento. Elas vendem a ilusão de controle e certeza em um mundo que não oferece nenhum dos dois.
O Experimento Falhou. O Que Vem Depois É Pior.
Quando escrevi que o experimento das bets online falhou, eu estava olhando para trás — para os dados de falência, violência doméstica, marketing predatório. Tudo isso continua verdadeiro e piorando.
Mas o que não enxerguei é que as apostas esportivas eram apenas a porta de entrada. O destino é a financeirização de tudo — de cada evento humano, cada conflito, cada tragédia transformada em oportunidade de lucro.
No Brasil, a regulamentação das apostas segue travada, e a CPI das bets gerou mais manchetes de celebridades do que proteção para o consumidor. Enquanto isso, o mundo já está apostando em bombas.
Eu passei pelo vício em apostas e sei como parar de apostar é uma batalha silenciosa e solitária. Talvez a sociedade precise de uma cura mais radical: reconhecer que algumas coisas não deveriam ter preço, que nem todo evento humano deveria ser uma linha de aposta e que a facilidade de um PIX não justifica a destruição que vem depois dele.
Mas confesso que sou pessimista. Quando o dinheiro fala, as instituições se curvam — e a NFL, que jurou combater apostas, agora fatura 500 milhões com elas. No Brasil, onde a curvatura é ainda mais acentuada, não tenho ilusões.
Fontes:
- Thompson, D. (2026). “We Haven’t Seen the Worst of What Gambling and Prediction Markets Will Do to America.” The Derek Thompson Newsletter.
- Sherman, L. (2025). Columbia Business School — Uber and Sports Gambling Research.
- UCLA/USC Research: Bankruptcies and sports betting legalization (2018-2023).
- FBI: 30 arrests in NBA gambling schemes (2025).
- Polymarket Iran bombing bets — February/March 2026.
- Cleveland Guardians match-fixing indictments — November 2025.